Textão sobre a Greve Geral, Dória, ação direta e digressões:

Por: Lucas Leonardo

Certa vez uma professora me disse que quando você joga um livro clássico pela janela ele volta através da porta. Isso resume minha relação com Karl Marx.

No ano de 1851 Marx publicou, através de uma revista, o texto intitulado “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, em que desenvolve, pela primeira vez, a tese de que o proletariado (1) não deve assumir o velho aparato estatal, mas desmantelá-lo.

No comecinho do livro, o autor busca em Hegel a seguinte passagem: “todos os grandes personagens da história mundial são encenados, por assim dizer, duas vezes (2)”. Porém logo após, Marx complementa que “a primeira vez como tragédia e segunda como farsa (3)”. Partindo desses trechos me questiono se é possível relacionar alguns fatos da Greve Geral ocorrida no dia 28 com o texto do velho pensador alemão?

É importante antes de continuar, ressaltar que Marx separou a chamada Revolução Francesa em três períodos principais: o período de fevereiro, período da constituição da República ou da Assembleia Nacional Constituinte e, por fim, o da república constituinte. Trabalharemos propriamente com a análise do segundo período, isto é, da Assembleia Nacional Constituinte.

O caráter da Assembleia era de redução dos resultados da revolução ao parâmetro burguês, ou seja, a burguesia, que lutara ao lado do proletariado contra a monarquia, apresentava suas reais intensões ao declarar que “as exigências do proletariado parisiense eram baboseiras utópicas que deveriam ser detidas” (KARL MARX, p. 3). A resposta do proletariado veio em Junho, em uma grande insurreição que marcou as guerras civis europeias.

Durante Junho todos que iam contra o proletariado se reuniram no “Partido da Ordem”, enquanto que a classe inimiga era considerada o “Partido da Anarquia”, do socialismo, do comunismo. O lema dos que defendiam a república burguesa consistia nas seguintes palavras-chave: “propriedade, família, religião, ordem”. Lutavam contra os “inimigos da sociedade”.

O que tudo isso tem a ver com a última Greve Geral do dia 28? Muita coisa, bebê.

Primeiro: tudo que envolve a questão do embate entre Ordem X Anarquia.

Logo que cheguei em casa, na noite do dia 28, liguei a televisão para ver a cobertura da mídia sobre a Greve. Me deparo com uma entrevista ao vivo do prefeito (que é totalmente um ser político) João Dória, no qual ele argumentava contra os atos daquele dia.

Seu argumento se baseava na ordem, na questão do direito de “ir e vir” e etc. Resgatava a passividade contra os intitulados “atos de vandalismo” e terminava uma de suas falas tomando posição (política!) favorável às reformas e a maneira como serão implantadas.

Sem querer entrar muito no debate da ação direta (no qual não é conclusivo de aceitação inclusive dentro do movimento anarquista), mas é importante sinalizar que existe todo um simbolismo que envolve as depredações das agências bancárias e o restaurante que carrega no próprio nome algo que remonta ao período escravista. Todo ato não é feito por si só, antes dele há uma reflexão. O ódio é direcionado e ele se apresenta mais evidente na luta de classes.

Para fechar esse primeiro pensamento: vocês percebem como a ordem é sempre insurgida para “salvar a sociedade”? As perguntas que deveríamos fazer são: Ordem onde, para quem e por quê?

Segundo: como os personagens e a história se repetem.

Marx disse que, para manter a república burguesa, o “Partido da Ordem” teve apoio da aristocracia financeira, da burguesia industrial, da classe média, dos pequenos-burgueses, do exército, do lumpemproletariado (4) organizado como guarda móvel, das capacidades intelectuais, dos padrecos e da população do campo.

E do lado do proletariado parisiense ninguém além dele mesmo(5).

Nada muito diferente do momento que vivemos, não? Mudam-se alguns agentes, mas a estrutura é a mesma.

Enfim, diante de tudo isso que foi dito, minha única certeza é que os clássicos sempre voltam mais vivos do que nunca e é fascinante como eles explicam muita coisa. =)

(1) Considero o proletariado diante do processo de ampliação do “setor de serviços” e a financeirização da economia diferente do citado por Marx. Acredito ser uma classe mais ampla que embarca não só os que aderiram a Greve, mas também os que por motivos diversos não aderiram. Óbvio, com o devido recorte de classes feito.

(2) G.W.F. Hegel, Vorlesungen uber die Philosophie der Geschichte. Ditter Teil [Preleções sobre a filosofia da história. Terceira Parte] (Berlim, 1837. Werke, v.9).

(3) M. Karl, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. [tradução e notas Nélio Schneider; prólogo Herbert Marcuse]. – São Paulo: Boitempo, p. 2, 2011.

(4) Pessoas mais a margem da população.

(5) Marx diferencia o proletariado da classe média, lumpemproletariado e etc. Vejo que para o período poderia até ser aceitável, porém relendo o texto depois de finalizado observo que as coisas não são bem assim.