Relato do dia 28/04

Por: Gabriel Martins

Sexta feira foi a minha vez

Desde que entrei para a militância, a história de amigos e camaradas presos, espancados e incriminados injustamente fez parte das conversas e rodas de bar. Essa sexta foi comigo.

A desonestidade dos PMs que, antes mesmo de enfiar minha cara no chão já me acusavam injustamente de ter ferido vários deles, veio na forma de socos e pontapés no meu rosto, sempre tomando cuidado para não deixar marcas demais ou me deixarem identificar quem desferia os golpes. Foram mais de 5 policiais se revezando em cima de mim. Puxaram meu cabelo, me estrangularam e torceram meus braços e mãos. Apanhei mesmo depois de algemado, dentro e fora da viatura, por PMs destacados e por kobans parceiros e amigos do nosso reitor (kobans, para quem não sabe, são a força de policiamento “comunitario” da usp, criada para vigiar nossas atividades).

Ameaças, agressões físicas, verbais e psicológicas. Fui detido sozinho, o que me fez passar mais de duas horas com os PMs comendo minha mente na viatura. O medo tomava conta, mas a necessidade de manter a calma e pensar nos próximos passos era sempre maior. Agir com estratégia. Antes mesmo de chegar à delegacia, já havia escutado de três deles que era tudo uma merda, pois no final das contas eles também ganham um salário de merda e vão ser afetados pelas reformas, mas ainda assim tinham que fazer o “trabalho” deles.

Me acusaram de, sozinho, ter ferido três policiais e de, sozinho também, ter danificado as grades da ECA, a jaula de Zago em torno do nosso espaço. Além disso, teria também resistido à prisao. Eram mais de 8 policiais envolvidos nisso tudo Mas ainda assim, segundo eles, esse meu corpo de 60 quilos teria sido capaz de todos esses feitos contra brutamontes treinados. “Ah tá”.

Plantaram pilhas em mim, que teoricamente portava para atingir os policiais. Me acusaram de Falsidade ideológica por me afirmar indígena e, de quebra e por pura provocação, me registraram como branco, na tentativa de perpetuar o apagamento que nós indígenas já sofremos cotidianamente.

Durante todo o percurso do ato, entretanto, estive ao lado do Coro de Carcarás, na agitação que transforma os tambores em microfone da revolta. Estive com meus camaradas do território livre levando uma posição correta e urgente frente à conjuntura. Estive ao lado de companheiros e camaradas que dividem comigo a raiva frente à situação do mundo e a disposição revolucionária na construção de uma superação à realidade de merda em que vivemos. Fui acompanhado durante todo o tempo na delegacia e agradeço a todos que lá estiveram e a todos que se preocuparam e mandaram mensagens de força.

SEGUIMOS EM FRENTE! A NOSSA LUTA, NOSSA REVOLTA E NOSSA ORGANIZAÇÃO SÃO LEGITIMAS. SEMPRE AVANTE, COMPANHEIROS!

NÃO À REPRESSÃO
NÃO ÀS REFORMAS
VIVA A NOSSA LUTA!