Carta aberta à Pró-Reitoria de Graduação

 

Por: Estudantes de Geografia da FFLCH.

Os alunos e alunas do curso de Geografia da USP, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas vem através desta carta exigir em caráter de urgência os devidos esclarecimentos sobre a não aprovação da verba adequada para a realização dos trabalhos de campo das disciplinas do curso para os dois semestres de 2017. Além disso, nos preocupa não apenas a forma arbitrária que uma decisão desse teor e de efeito tão amplo é tomada por um órgão tão restrito, como também o pouco comprometimento da pró-reitoria com os prazos de aprovação mínimos para a organização e efetivação dos campos no calendário letivo, comprometendo a realização destes com a proposta pedagógica das disciplinas. Dessa forma, gostaríamos de expressar a insatisfação geral por conta do ocorrido, além de considerarmos que nenhuma justificativa é válida perante esse ataque ao nosso curso e aos outros que também foram alvo de cortes.
Desde muito tempo é nítida a importância dos trabalhos de campo como ferramenta fundamental para a formação das geógrafas e dos geógrafos, em consonância e como complemento às teorias vistas em sala de aula. Segundo Hissa e Oliveira (2004, p. 38): “Os trabalhos de campo, desde que acompanhados de referências teóricas, podem constituir-se de indispensável instrumento da ampliação das perspectivas conceituais dos estudantes”. A partir disso, pode-se perceber ainda o quão relevante é, não só para a formação de profissionais qualificados, mas também, no que tange ao retorno dado a sociedade, enquanto futuras e futuros profissionais, pois diversas e diversos estudantes atuarão na educação, desde o nível básico até o nível superior, em múltiplos contextos e realidades.

Além disso, ressaltamos a necessidade de vincular a dimensão teórica à prática, pois ambas só serão completas em uma perspectiva integrada, ou seja, só tem valor enquanto coexistentes. As teorias nos explicam parte da realidade, mas, é somente a ida a campo que nos permite observar o dinamismo da realidade, que reforça a incompletude das teorias e a necessidade de repensá-las a todo instante. Sem a experiência do campo, o movimento e a análise se torna incompleto. Hissa e Oliveira (2004, p. 39): “Todas as anotações dizem respeito ao necessário esforço teórico-metodológico para que a disciplina possa, através dos trabalhos de campo, desenvolver maiores possibilidades de construção de um discurso progressivamente mais consistente e mais prático: para a vida dos saberes, em especial da geografia, para a vida dos indivíduos e da sociedade”.

A Geografia foi concebida na Universidade de São Paulo com base na linha de estudos da escola francesa. Esta coloca como central a relação entre o homem e o meio onde ele vive, valorizando a experiência empírica do ser humano e a possibilidade de intervir no espaço geográfico ao seu redor. Dentro desse contexto, a escola paulista de geografia em especial foi fundamental para a difusão e desenvolvimento da ciência por todo o território nacional e podemos citar inúmeros geógrafos cuja importância foi fundamental para a construção da ciência geográfica e a sua utilização pelo próprio Estado brasileiro, através de políticas públicas, planos de desenvolvimento e planejamento estatal, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, entre outros meios.

Pierre Monbeig, geógrafo de total importância para a fundação e consolidação da escola de geografia desta universidade em 1935, tem entre seus principais trabalhos “Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo” e “Crescimento da Cidade de São Paulo”, uma produção científica imprescindível para o entendimento do Estado de São Paulo em sua principal fase de expansão. Tal  prática geográfica tem a descrição detalhada da paisagem histórica e social como pilar fundamental, como colocado por Ab´Saber, um de seus mais notáveis estudantes:

 

“São Paulo fervia, o Brasil fervia, e Monbeig não deixou de perceber isso. De pronto, começou suas pesquisas sobre as zonas pioneiras no Oeste do estado de São Paulo e Norte do Paraná alertando seus alunos sobre a importância dos trabalhos de campo. Aziz Ab’ Saber, ele mesmo um de seus alunos, lembra que Monbeig advertia; que toda a teorização precoce acabava por ser repetitiva e infértil. Era necessário iniciar-se por trabalhos analíticos sobre temas reais, percebidos no teatro geográfico das atividades humanas, quer no mundo rural quer no urbano. Antes de se iniciar nos trabalhos de campo e na percepção das relações entre os homens e a terra, e os homens e a sociedade, era impossível teorizar”
(Ab`Saber, 1994).

Ressaltamos então que a geografia enquanto ciência deve possuir necessariamente uma dimensão empírica como forma de estudo, desempenhada pelos trabalhos de campo, sem os quais a base estruturante da geografia enquanto ciência fica comprometida em sua qualidade historicamente reconhecida. Reiteramos por tanto que a geografía desde sua gênese tem como fundamento a imprescindibilidade do trabalho de campo como método científico por excelência.
Devemos também lembrar que o Ministério de Educação, a partir do PARECER CNE/CES 492/2001, reitera o trabalho de campo enquanto parte das competências e habilidades na formação do geógrafo. Foi baseando-se nisso que o Departamento de Geografia, em seu Projeto Político Pedagógico, enfatiza que a execução da grade curricular depende da realização desses campos, sendo que metade dos créditos obrigatórios (360 créditos) é constituído pela realização de créditos trabalhos (estes que incluem o trabalho de campo).
Cabe ressaltar que na obrigatoriedade do trabalho de campo para a reconhecida formação do geógrafo pelos competentes órgãos de educação, a necessidade de sua gratuidade passa a ser fundamental devido à composição socioeconômica de seu corpo discente, principalmente após medidas e inclusão adotadas recentemente pelo departamento, que visam um acesso universitário mais democrático e socialmente justo.
Assim, na plenária ocorrida em 24/04/2017 no Departamento de Geografia, composta por 206 estudantes e  docentes de geografia, verificamos a necessidade de exigir maior transparência nos trâmites de deferimento ou não de verba destinada aos trabalhos de campo, além de condições nas quais as negativas dos trabalhos de campo sejam discutidas e decididas entre a Reitoria e o próprio Departamento de Geografia, uma vez que estes fazem parte do crédito de trabalho previsto na própria grade curricular do curso de bacharelado de geografia, o qual é pública e acessível para qualquer cidadão.
Frente a já crítica condição do ensino do curso, com a falta de docentes decorrente da sua não reposição, e as condições físicas dos espaços de aula, esperando a reforma adequada há mais de uma década, consideramos que o não oferecimento dos trabalhos de campo pode fragilizar ainda mais o curso e inviabilizá-lo completamente em prazo de anos.
Diante disso, reforçamos o pedido urgente de um parecer detalhado de todos os indeferimentos dos trabalhos de campo deste 1º Semestre. Lembramos que a não concretização destes campos inviabiliza a realização das disciplinas que os requeiram, inviabilizando, portanto, a própria formação dos estudantes que estão em via de conclusão do curso. Tal impasse pode implicar em ações legais individuais e\ou coletivas que assegurem o trabalho acadêmico proposto e aprovado pelo Ministério de Educação.

  P.S.: Sugerimos que todos os estudantes que compactuem com o que está aqui escrito que mandem um e-mail com essa carta, seja em anexo (link para o PDF) ou como corpo do e-mail, para o endereço virtual da pró reitoria e seus burocratas:

hernandes@ifsc.usp.br

prg@usp.br

atdprg@usp.br

sagcprg@usp.br

sagaprg@usp.br