MANIFESTO DO ESTUDANTE DE GEOGRAFIA – POR UMA ESTUDANTE QUE ESTÁ CANSADA DEMAIS, MAS NÃO QUER DESISTIR

Por: Amanda Cristina

Bom… é… eu deveria estar estudando algum texto ou adiantando alguma leitura já que é Semana Santa e o privilégio de estar na tal Universidade de São Paulo deveria ser a única justificativa para uma postura assim. E sim, é minha obrigação. Vocês, o povo dessa nação, é que pagam meus devaneios.

É que a rotina cansa. É que as pessoas me cansam. É que as notícias também. E eu vivo nesse estado de canseira por conta de como a vida é. E mesmo assim eu faço aquele mínimo – que é a minha obrigação – sem reclamar um pio sobre isso. E na calada da noite das semanas mais tranquilas eu me pergunto, me sentindo culpada, é errado eu me cansar?

Bom, não é.

Nós, alunos da tal Universidade de São Paulo dormimos, comemos, respiramos, vivemos, saímos, rimos, nos entretemos, estudamos, oramos, andamos, perguntamos, reclamamos, choramos e não agradecemos, talvez, como deveríamos, por tudo isso. Não olhamos ao redor e apenas nos conformamos com os cortes, com as crises, com as demissões, com a falta de limpeza do banheiro, com a falta de segurança, com a impressora que quebra semana sim, semana não… não percebemos que, muitas vezes, só o fato de exigirmos é de um ato revolucionário tão forte que poderíamos mudar o mundo. Por que nada fazemos?

Eu sei, é cansativo. Eu também estou cansada. Tenho pensado em desistir. Pensei diversas vezes eu abandonar, em chegar lá na sessão de alunos e pedir o trancamento dessa oportunidade imensa que é estar ali, entre os grandes e também muito inteligentes. Pensei em escolher entre um emprego de contrato fajuto e o sonho de uma vida (e descobrir que realizar um sonho só traz felicidades para meia dúzia de noites porque, depois, nada mudou e o mundo continua como é), pensei em ajudar a minha mãe, pensei que ali eu só teria motivos para piorar minha saúde mental e espiritual vendo tanta gente sortuda (era como eu via as coisas) usando desse espaço para nada mudar, nem mesmo suas realidades. Pensei que na tal Universidade de São Paulo eu só morreria por dentro, dia após dia. Pensei que não valia a pena gastar o plano de saúde que minha mãe recebe do serviço com terapia já que o problema da minha vida é justamente estar ali: na tal Universidade de São Paulo.

E não, eu não posso reclamar. Por todos os motivos citados acima e mais um milhão. Eu me matei de estudar, sim, para aqui estar, e foram dois anos, mas eu sei que ainda estou pisando em estruturas que me permitem estar degraus e degraus de distância de muita gente. Tenho os meus problemas e tenho minhas dificuldades, mas todos os dias leio os jornais para ver a desgraça alheia e lembrar: aqui é a América do Sul, não a Europa. Tenho vontade, também, de comprar os discursos mais fáceis e viver uma vida de luta acreditando em meritocracia – talvez se eu me esforçar muito, talvez eu consiga passar da cozinha para a gerência de um Mc Donald’s qualquer da cidade.

Talvez eu devesse largar as coisas que faço sem nada ganhar porque também tenho contas para pagar e talvez eu devesse apenas defender só a minha sobrevivência. Talvez eu devesse parar de me importar com as coisas as quais não posso mudar, porque assim talvez eu precisasse de menos consultas na terapia e eu tivesse mais tempo livre para assistir alguma série idiota no tempo livre do meu trampinho honrado. Talvez eu devesse me fazer de vítima, porque eu tenho problemas, sim, e eles são importantes, sim. Talvez eu só devesse pensar nisso e ignorar todo o resto.

Mas não consigo. Aí já é uma coisa que não sei como explicar (alguém da biologia tem resposta para isso?). E eu continuo indignada porque são três anos dentro da tal Universidade de São Paulo e, a cada ano que passa, é mais frequente ainda o defeito na impressora. Poxa, é de marca estrangeira. É das boas! Lá na parede da salinha pró aluno está escrito “30 PGS POR DIA” e tem cara que insiste em imprimir o livro inteiro do Lefebvre de uma vez só. Você tem cerca de 200 dias no ano para imprimir isso, cara… porque não pega uma parte por dia? Você trata mal a sua colega que está de monitora na sala e ela ganha míseros 400 reais (num contrato que só existe para a universidade não precisar contratar um técnico e pagar um salário decente), tão sem culpa quanto você. E você se conforma em pagar 2 contos, 3 contos, 7 contos num texto porque “é urgente e esse trocado não vai fazer falta” sendo que a sessão de aluno está ali para ouvir suas reclamações, sendo que você tem um centro acadêmico para chegar junto e propor: amigos, vamos fazer alguma coisa juntos?

Vamos fazer alguma coisa, então. Nós somos estudantes da tal Universidade de São Paulo, poxa. Honrem esse nome. Peguem essa vaga que não deveria ser nossa e conquistamos às duras penas e façam dela a revolução. Todos os dias eu luto, também pensando em desistir, mas a bagunça está tão grande que só de eu acordar, provavelmente já é um ato revolucionário. Ser humano é errado. Só de estar vivo, você já está errado, mas, contraditoriamente, só ao acordar, você faz a revolução.

Enxerguemos, nós, alunos e companheiros. Damos as mãos. Vamos começar a participar e a limpar a bagunça. Vamos participar dos nossos espaços de decisão. Essa nossa geração que não tem utopia está com a faca e o queijo na mão para praticar aquilo tudo que estudamos e exaltamos: mudança. Essa é a brecha. A ruptura. Olhem ao redor. E vamos juntos!