FORA_TEMER™

Por: Guilherme Leria Sanches

        Vivemos no neo-macartismo tupiniquim. As polarizações no âmbito da política nacional fizeram com que não houvesse a possibilidade de elevar o nível do debate e propriamente pensar um plano para o “pós-lulismo”. Vivemos na época em que discutir o golpe virou atacar a oposição “antipetista” – de direita e esquerda, em que Haddad faz acordo com PSDB para aumentar a tarifa, esquerda que não consegue ver uma justificativa nos black blocks e na revolta popular de 2013 virando micareta da direita, aquelas brisas de que atacar o Temer tem que passar pelo voto no Lulálá ou sei lá quem em 2018 – quase um verbete do nosso anarcopetismo “acadêmico”.

        A demanda do fora Temer e tudo o que ela representa pode, a meu ver, passar por uma marca, uma mercadoria, que se vende sob a pretensão de unidade no movimento com o preço de esterilizar os debates do que queremos para o nosso futuro. Mas quem tem um plano para o nosso futuro? Quem está realmente indo à base para dialogar? Essa tão badalada onda reacionária que todos os esquerdistas gostam tanto de falar é mais um reflexo da nossa preguiça de fazer um trabalho de base radical do que um reflexo dos avanços no âmbito político de uma direita organizada e coerente em nível de movimento.

        Veja bem, eu não estou querendo dizer que a direita não é organizada no sentido da política de Estado, eu estou afirmando que a direita não é unitária e organizada em suas demandas e na construção de suas pautas, afinal de contas o que é ser de direita/esquerda? Vivemos dentro da confusão de Fora_Dilma® vs. Fora_Temer™ ² que sempre acaba mistificando o que fundamentalmente é defender a “causa” de esquerda ou de direita.

        No caso do Fora_Dilma® é de se esperar que os reacionários e liberais tendem a ser sectários sem diálogo.  O debate da direita é reacionária e da direita liberal – se é que da pra chamar aquilo de liberal – tende a concordar no nível econômico, e o ataque constante a qualquer coisa que é esquerda, mas não no nível de “valores”. O debate acaba se voltando ao suposto ataque a religião católica ocidental e  aos valores tradicionais que se perdem na sociedade atual, para poder usar o Fora_Dilma® na camiseta há de se pagar o preço do silêncio absoluto.

        No nosso caso o Fora_Temer™ não exige – ainda – esse preço do silencio no debate. Nós, ao menos no nível teórico, estamos abertos a novas perspectivas e a novas ideias, mas ainda estamos patinando para acharmos o ponto de contato, o que nos tangencia enquanto prática de esquerda e enquanto o que nos fundamenta enquanto movimento.

        No meio acadêmico o caldo engrossa ainda mais. A universidade de São Paulo acaba representando bem esse cenário, as faculdades e institutos classicamente liberais/conservadoras não debatem política, ou quando debatem partem já das “desmedidas” ações da esquerda contra o Zago ou na situação insustentável que a USP chegou com seu caderno de contas explodindo, não chegam a questionar seus próprios valores e ideais – privilégios.

        No caso das faculdades historicamente voltadas aos debates políticos e a pensar o que há por trás dos fenômenos da sociedade e da natureza o debate toma outras perspectivas. Somos claramente mais preparados para dar o passo a trás e questionar o que estamos vendo a partir das ferramentas que nos são ensinadas nas aulas. Contudo, há um movimento de busca por respostas simples, e assim como em uma relação naturalmente não maniqueísta as situação dessas duas faculdades acabam se misturando: há pessoas na FEA preocupadas em desvendar o real e há pessoas na FFLCH que já partem dos seus pressupostos para afirmar uma saída para atual situação. A grande diferença é que o nosso espaço de discussão na FFLCH  é mais aberto do que na FEA. Ou é mesmo?

        Precisamos efetivamente esclarecer e desmistificar a política e passar a pensar um futuro que seja democrático. Não democrático nos moldes da democracia deles¹, mas uma democracia como pensara Paulo Freire em Educação Como Prática da Liberdade, democrática e que tenha como preceito mais básico o diálogo entre todos.

        Assim sendo, proponho que nós do curso de geografia USP organizemos uma semana de formação política ainda neste primeiro semestre. Lá poderemos discutir os projetos de cotas para a USP, A reforma da previdência, as diversas correntes políticas dentro da esquerda e até o que é ser esquerda. A partir desta semana poderemos fazer um projeto político autogestinado, democrático e, acima de tudo, extremamente esclarecido para este ano e para os próximos desafios que o futuro reserva para a USP.

1-leiam o texto do Território livre para a primeira canhota, eu gostei muito.

2-o ® significa marca registrada, só podendo usar com a autorização dos donos da marca e o ™ significa que é uma marca, mas ela não é registrada, podendo ser usada sob qualquer circunstância. Usei isso como forma de ironizar as proporções que isso toma, como na imagem acima, onde você usar a camiseta sobre uma causa já te faz militante dela ou esclarecido sobre os efeitos e causas dessa pauta política, ou indo além dessa ironia, quando Fora_Temer™ vira quase um “tem Pepsi, pode ser?”, uma frase de efeito sem bosta de força nenhuma além da comercial, da aparência.