O paradigma do posicionamento

Por: Joaquim Bührer

A ascensão notável de políticos nacionalistas é, sem dúvida, uma das facetas da ressacas pós crise que consistem basicamente num ciclo de crises do capital a nível internacional. Pensando em fatos: a questão do subprime em 2008 dá seus primeiros sinais no primeiro governo Clinton com o fomento à propriedade – dado que o mercado imobiliário seria o mais seguro para os investimentos – onde o número de hipotecas aumentou drasticamente. Em 1999 o número de hipotecas não pagas levou muitas pessoas a perderem suas casas – o que gerou uma onda de refinanciamentos, marco definitivo da capitalização do mercado financeiro e aumento do preço das propriedades. Daí para diante a bola de neve só cresceu e estourou exatamente no final do governo Bush – que mantinha as guerras no Iraque e Afeganistão já em alto nível de capitalização¹ –
Harvey (2010) aponta que a porcentagem de desemprego nos EUA na década de 90 era maior entre afro-americanos e hispânicos, grupos sociais que sentiram primeiro a dificuldade em realizar financiamentos de habitações – as classes médias brancas responsáveis pela eleição do Trump, só começaram a ser afetadas em meados de 2007 quando a bolha já estava para estourar e atingiu regiões da Flórida, Arizona, Califórnia e Nevada. As macroestruturas que sustentam essa sistematização vão muito além de dados econômicos – e perpassam análises sociológicas e culturais – portanto não refletem apenas um contexto de crise. Analisando essa informação friamente percebemos que havia uma conjuntura de desamparo das minorias econômicas (afro-americanos e hispânicos) que culminaram na eleição do Obama – este que recebeu no colo a maior crise desde o grande Crash na bolsa e altíssimos níveis de desemprego² – o que pode ter influenciado seu marketing eleitoreiro basicamente nas questões sociais: ObamaCare e Zonas Promessas, por exemplo, além das questões de gênero, sexualidade e raça como motes principais.
A classe média majoritariamente branca que se sente abandonada pela administração Obama sofre, então, os reflexos da crise de forma aguda com uma espécie de delay em relação a outros estratos sociais – e paradoxalmente passa também a ser alvo dos programas sociais da administração que culpam, tendo como alguns dos alvos do programa de revitalização econômica ‘’Zonas Promessas³’’ a cidade Los Angeles na Califórnia e San Antonio no Texas. É aí que entra a ressaca da crise.
Os movimentos cíclicos de crise no capitalismo sempre oscilam de forma estrutural nas camadas sociais: é comum um levante conservador após uma situação de crise. As respostas, no entanto, podem variar no sentido de que as pessoas precisam se apegar a valores monolíticos em tempos de incerteza, que os estratos sociais mais afetados pelas crises geralmente englobam pessoas com menos estudo e mais suscetíveis a discursos populistas.. São questões complexas. As certezas se equilibram quando as características comuns dos discursos populistas envolvem nacionalismos exacerbados – que aparecem nos refrões ‘’Make America Great Again’’ ou os eurocéticos do Frente Nacional da França, Aurora Dourada na Grécia ou Alternativa Para a Alemanha – e o protecionismo, esse último que só é possível na constituição de um Estado forte e interventor.
Mas o Estado também foi o responsável pela injeção de capital que salvou a seguradora AIG, o governo americano adquiriu formalmente duas agências (Fannie Mae e Freddie Mac) e foi o próprio Federal Reserve (Sistema de bancos centrais dos EUA – Fed) que intermediou a compra do Bear Stearns pelo JPMorgan Chase – o pacote de injeções acertado pelo governo Bush beirava 2,7 trilhão de dólares com o objetivo de salvar a economia. Curioso é perceber que após esse momento fatídico, segundo Junior & Bertella, países com crise sistêmica (Portugal, Espanha, Grécia, Reino Unido, etc) a dívida pública cresceu cerca de 134% no pós 2009 e os aumentos da dívida soberana passam a ser via de regra nesse contexto principalmente nos países emergentes. Aumento de dívida pública em relação ao PIB configura o famoso ‘’gastar mais do que tem’’ – o que gera outra bola de neve insustentável ao longo dos anos.

Lado a lado com a ascensão dos políticos conservadores, contextos pós-crise também são carregados por chavões econômicos como reformas e ajustes, levando em conta a emergente necessidade de realocar recursos do Estado agora para o pagamento das dívidas adquiridas, salvamento de empresas e injeções econômicas pontuais que flutuam desde a básica Keynesiana das obras e guerras, até as facilitações fiscais para atrair investimentos e empresas estrangeiras. Visto, por exemplo, a recente e massiva propaganda do Governo Federal sobre a iminência da reforma da previdência – elevando a idade mínima de aposentadoria para 65 anos, ignorando totalmente que essa é exatamente a expectativa de vida nos estados mais pobres brasileiros – em relação a outros programas sociais como Bolsa Família ou Fies.  Nos EUA, no entanto, o protecionismo aparece na forma isolacionista de evitar relações globais e apostar nas relações bilaterais de comércio (saída dos EUA do Tratado Transpacífico ou a anunciada crise no NAFTA ao mesmo tempo que fortalece relações bilaterais, por exemplo, com o Peru na América Latina [recém visita do presidente peruano à Casa Branca]), nos incentivos a ‘’comprar produtos americanos e contratar americanos’’ e o aumento na taxa de juros do Fed para 0,75%, o que pode ocasionar aumento da moeda americana em relação à outras moedas, como o Real.

Então emerge o impasse: claramente os setores mais afetados pela crise são as classes médias descendentes e os estratos sociais que já sofrem extremamente pelas macroestruturas de desigualdade perpetuadas na forma do racismo institucional, do preconceito de gênero e das questões de classe – essas mesmas pessoas sofrem duplamente agora com a iminência das reformas e ajustes que, dando nome aos bois, envolvem a PEC 241\55 já aprovada, a Reforma do Ensino Médio já aprovada, a Reforma na Previdência e os cortes em programas sociais existentes, como o Fies e o Prouni. Nos EUA, por exemplo, a diferença ainda fica mais acirrada no ponto de que os principais afetados pelas políticas do Trump serão os imigrantes em situação delicada e as minorias sociais. O argumento central aqui é o papel do autor da crise: não foram essas pessoas os responsáveis pela total abstração das compras-e-vendas de ativos tóxicos na crise do subprime e não são essas pessoas que diminuíram o setor produtivo brasileiro a ponto de chegar na recessão – existem interesses distintos em choque – então porque seria justo que elas pagassem a conta? Tendo esse panorama em vista é fácil entender porque governos nacionalistas e protecionistas, combo populistas, emergem com toda a força – porque alguém sempre sabe capitalizar as demandas políticas dessa população desamparada, e geralmente consegue verter o discurso do ajuste como única solução plausível. Fim de papo para eles, as urnas mostraram essa questão através da eleição e consagração do discurso privatista de João Dória como prefeito de São Paulo, e as pesquisas mostram os crescentes números do Bolsonaro na corrida para o cargo de presidente em 2018 – mas são apenas alguns exemplos.

Ainda nesse contexto: reformas como a taxação de grandes fortunas, reforma tributária, cortes nos gastos públicos que envolvem os super-salários e regalias de servidores, auditoria da dívida pública ou fortalecimento da indústria nacional aos moldes do Neo Desenvolvimentismo do governo Lula, são ostensivamente ignoradas como soluções às questões orçamentárias que envolvem majoritariamente cortes nos investimentos em Saúde, Educação e Previdência. Portanto seria impossível não se perguntar para quem servem essas reformas.

Essa questão não é simplesmente técnica: envolve políticas públicas e interesses políticos diametralmente contrários, o que a torna essencialmente política e que substancialmente envolve questões de posicionamento: é preciso escolher, literalmente, de que lado você está – o que constitui o paradigma da situação atual e consiste no dilema enfrentado pela esquerda e pela direita institucional frente à radicalização dos discursos nas ruas, refletindo, essencialmente a partir de 2016, nas urnas ao redor do mundo. Uma ressaca das bravas.
 

¹ As guerras do Afeganistão e Iraque são marcadas pelo aparecimento e consolidação do formato de guerra terceirizada que movimentou bilhões envolvendo empresas como a Blackwater – Mercenários do Século XXI

² Programa anunciado por Obama em 2014 com objetivo de criar zonas de revitalização econômica e combate à pobreza

 

³ Até sua reeleição o índice de desemprego chegava no 7,6%. Obama foi o único presidente americano reeleito com uma taxa tão alta.

Harvey, D. O Enigma do Capital. 2010. Boitempo Editorial. Disponível em <https://escoladequadrosmes.files.wordpress.com/2014/01/oenigmadocapital-eascrisesdocapitalismo.pdf>

 

Junior, C. P. N. Bertella, M. A. DA CRISE FINANCEIRA À CRISE DA DÍVIDA SOBERANA: UM DEBATE SOBRE A POLÍTICA FISCAL. Disponível em <http://www.akb.org.br/upload/130820120851542355_Celso%20Pereira%20Neris%20Jr.pdf>
Villela, G. O GLOBO. ECONOMIA. Após crise global estourar em 2008, bancos receberam socorros bilionários. Disponível em <http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/apos-crise-global-estourar-em-2008-bancos-receberam-socorros-bilionarios-13495994>


Cardilli, J. G1. MUNDO. ELEIÇÕES NOS EUA. Em meio à crise, governo Obama tem avanços sociais e apatia econômica. Disponível em <http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2012/noticia/2012/11/em-meio-crise-governo-obama-tem-avancos-sociais-e-apatia-economica.html>

Casado, C. G. UOL NOTÍCIAS. ÚLTIMAS NOTÍCIAS. Combate à pobreza nos EUA retorna à cena política 50 anos depois. Disponível em <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2014/01/09/combate-a-pobreza-nos-eua-retorna-a-cena-politica-50-anos-depois.htm>