Lições de física clássica

Por: Joaquim Bührer

Lex III: Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem: sine corporum duorum actiones in se mutuo semper esse aequales et in partes contrarias dirigi*.

No contexto da física moderna, Isaac Newton descreveu o princípio da ação e reação – A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos*. Trata-se da sua terceira lei, que aparece num momento de boom das ciências naturais, dotadas de método científico, onde contemporâneos de Descartes voltavam seus olhos para o entendimento da natureza, por pensar, justamente, que estavam além desta.

Uma reação é estimulada por um princípio ativo; é uma resposta que não necessariamente responde uma pergunta – avançando no conceito newtoniano, a reação é um reflexo. No espelho os movimentos são inversos, uma martelada leve no joelho causa um pulso nos músculos da perna, ação e reação sempre dão a ideia de causa e efeito, e indo além, a reação sempre é relacionada à negação: trata-se de um princípio que se define pelo contrário, pela rejeição do outro. No clássico e oportuno exemplo: um burro amarrado a uma pedra; a tensão exercida pelo burro na corda, ao tentar se afastar da pedra, é a mesma tensão de resposta. Uma força é igual ao módulo da outra – assim é, pelo menos, no momento de tensão – ou como a metáfora da nossa vida urge, num momento de conflito. Se não queremos uma corda tencionada, precisamos cortá-la –

Não é raro ouvir falar de um ‘’avanço’’ reacionário em terras tupiniquins, sejam nos reflexos eleitorais, seja em atos de rua, seja no discurso de ódio nas linhas do tempo, no almoço em família, ou no buzão. A impressão generalizada é que o modus operandi Datena baixou como o Hao123 num Pacote Office Petralha que eventualmente tínhamos baixado em 2002, e agora o nosso velho Pentium 4 que chamamos de Democracia.. estaria infectado. Ora fosse assim tão simples.

Avanço reacionário’’ por si só é um termo contraditório: o avanço de uma reação. Só existe um modo funcional desse termo quando operacionalizado, veja só, pela negação – uma reação crescente só pode ser uma resposta a outro movimento crescente, este que denominaremos por aqui como “Ação’’. Não, esse texto não pretende transpor um conteúdo social contraditório sob uma forma pseudo racionalista das ciências naturais produzidas no século XVII, e assim tentar forçar uma resposta utilitarista para uma questão tão complicada quanto é possível ser, nada disso. O que pretendemos oferecer é talvez uma perspectiva.. diferente.. sob os fenômenos sociais observados por aqui. Se seu objetivo é encontrar uma resposta, esse texto não vai ser uma fonte dos argumentos cíclicos que você costuma postar na sua timeline enquanto sua bolha ideológica curte e compartilha. Esse texto é um convite.

Desde o ano passado foram observadas pequenas – e relevantes – alterações nos padrões esquerdopatas de se manifestar politicamente. É impossível não pensar nas ocupações das escolas por alunos secundaristas, que reinventaram um método político que é capaz de combinar Ação Direta e Ressignificação dos Lugares numa coisa só. Não podemos deixar de enfatizar a força que o movimento feminista vem ganhando em todos os âmbitos: públicos e privados, nas casas, famílias, nas ruas e movimentos políticos, hoje qualquer tipo de violência e opressão contra a mulher não é mais apenas um tabu – é uma aberração – a organização das mulheres foi responsável por inúmeros atos, que passaram desde derrubar o Eduardo Cunha, até pequenas e significativas mudanças nos coletivos país à fora. Também os movimentos negros, no Brasil e no mundo, que articulam e movimentam intensos questionamentos sobre as macroestruturas racistas que todas as nossas instituições ainda suportam hipocritamente.. E, é claro, os setores LGBT que vem fazendo a frente de batalha contra os conservadores clássicos, nos órgãos públicos e igrejas, responsáveis pelo maior ato político do país, a Parada Gay. Todos esses setores se articulam em conjunto pelas pautas sociais e vem esquentando o cenário político brasileiro. É claro que existem divergências metodológicas e ideológicas – talvez um recorte classista trouxesse um novo paradigma, talvez uma síntese destronasse reis.. Talvez. Fato é que aquém das eventuais pautas conjuntas e assuntos guarda-chuva, que convergem os pontos, a articulação desses locus políticos têm abalado estruturas paleolíticas – e botado medo em muito engravatado e utilizador de sapatênis por aí. Uma Ação.

O estímulo da ação é o estado de normalidade das coisas – ou a ausência de movimento – que na física clássica conhecemos como repouso. Ao contrário da reação, que é uma resposta, a ação se constitui no movimento inicial no plano de movimento normal: movimento que causa tensão. A perspectiva que oferecemos aqui não é estática, mas sim provocadora: seria o ‘’avanço’’ reacionário uma resposta ao nosso movimento? Claro que a física apenas oferece um panorama, nada de modelos –

– ou sim?