CRIAR A CIDADE, TRANSFORMAR A UNIVERSIDADE

Por: Diretório Central dos Estudantes (DCE)

O (infinito) ano de 2016 finalmente acabou, no entanto, importantes debates levantados nos seus doze meses continuaram em 2017 como resultado do aprofundamento da crise econômica e política no país.

Em janeiro de 2017, João Dória Jr. assumiu a prefeitura de São Paulo e, logo nos primeiros dias de gestão, mostrou a que veio ao iniciar uma verdadeira guerra aos pobres na cidade: moradores de rua foram escondidos embaixo de viadutos, a cracolândia foi atacada pela polícia militar e os pixos pelas principais avenidas da cidade foram apagados com tinta cinza. A nível nacional, uma crise no sistema penitenciário explodiu, escancarando o funcionamento falido das cadeias que, na prática, serve para retroalimentar o crime organizado e aprisionar em massa a juventude negra. Internacionalmente, Donald Trump assumiu a presidência dos Estados-Unidos e a crise dos refugiados continuou a se agravar.

A Universidade de São Paulo, por sua vez, reflete de forma simétrica cada momento da conjuntura para além de seus muros, tendo passado no último período por uma das reitorias mais intolerantes de sua história recente. Você sabia que a USP é uma das únicas universidades públicas do país que ainda não aprovou cotas como método de ingresso, mesmo com isso sendo previsto no PNE()? Que a reitoria quer acabar com a autonomia estudantil tentando retirar os espaços dos Centros Acadêmicos e proibindo as festas dentro da universidade? Ou ainda, que a comunidade uspiana nunca decidiu quem seria seu reitor? O pacote aplicado pelo reitor Marco Antonio Zago foi o estopim para uma pauta que necessita ser central este ano entre os estudantes: a democratização daquilo que é público!

Em 2017 completam-se quatro anos da gestão Zago, ou seja, último ano de seu mandato, isto significa que no segundo semestre ocorrerá uma nova eleição. Nós, do DCE, acreditamos ser fundamental a construção de uma campanha para que cada pessoa da comunidade universitária decida quem será o próximo reitor da USP, não permitindo ao Governador do Estado de São Paulo decidir isso sozinho. Devemos aproveitar esse momento para refletirmos e reivindicamos espaços de decisão mais democráticos e, portanto, mais justos para todos!

Essa disputa por espaços públicos, tanto concretos quanto abstratos, não ocorre apenas dentro da USP e, também não é de hoje, sendo consequência de um processo histórico que deixa registros todos os dias na própria cidade. A história da cidade consiste na construção de um  verdadeiro palácio para a elite econômica morar e então, poder mandar e desmandar nos trabalhadores do campo e da própria cidade. Os períodos de crise são aqueles nos quais ciclos de produção se esgotam e nos quais, como consequência disso, a economia entra em recessão, obrigando as elites a buscarem saídas mais conservadoras para manter seus poderes e privilégios. Dentro disso encontra-se o acirramento da disputa por espaços, pois, controlar o que ocorrerá em cada lugar, diz respeito ao sentido político que ele terá para toda a sociedade e isso é uma forma de demonstrar força e poder.

No entanto, também são nos momentos de crise que a instabilidade na sociedade abre espaço para a indignação das pessoas girar em torno de pautas comuns, fazendo o movimento por direitos crescer e cantar junto, no mesmo tom, a mesma reivindicação! Dizemos isso, pois, em meio a uma grande tensão devido à crise econômica e questões políticas, a USP, em unidade com as outras universidade estaduais, UNESP e UNICAMP, construiu uma forte mobilização em 2016 contra, também, suas reitorias. Isso possibilitou muitos estudantes tomarem para si a política como uma ferramenta sua para debaterem e lutarem por rumos dentro da universidade que ampliassem seu caráter público, como por exemplo: a adesão de cotas raciais e sociais como forma de ingresso na USP.  Batalha que deve continuar a ser travada este ano!

Nesse sentido, é importante dizer que a USP não reflete apenas os problemas do país afora, visto que ela também reproduz soluções e importantes movimentos ligados ao centro do debate político em cada momento, com destaque para os setores mais oprimidos socialmente, os quais vêm se apropriando cada vez mais da mobilização como seu instrumento de luta. Assim, se um presidente racista, machista e xenófobo assume o país mais importante na Geopolítica mundial, as mulheres do mundo inteiro marcham para repudiá-lo; se há uma crise penitenciária gravíssima, a população não escolhe o debate óbvio de culpar aos presos e derruba um ministro o qual diz que todos os encarcerados deveriam morrer; se na cidade de São Paulo, um prefeito almofadinha declara guerra aos pobres, a juventude declara guerra a ele; e se na USP, um reitor escolhe tentar acabar com o movimento estudantil, nós lutamos por cotas, políticas de permanência, expulsão dos estupradores, abertura das contratações de professores e democracia nos espaços de decisão da universidade! Para nós, do DCE Livre da USP, a mobilização e o movimento estudantil não são causas perdidas, mas, sim, nossas melhores esperanças para transformar nossos sonhos de uma universidade, cidade e sociedade diferentes em realidade.

Sejam todos muito bem vindos a USP! Vamos fazer deste, um grande ano na Universidade!

 

 

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