Como o Major Olímpio e o Haddad me lembraram Zizek

Por: Joaquim Bührer

Já existe um certo consenso sobre o golpe no campo da esquerda – alguns de maneira mais ou menos incisiva, outros mais ou menos enfáticos – ainda que setores variados não ajudem na construção da narrativa e outros a ignorem completamente. É preciso considerar esse fato – uma vez que aqui não se discutirá nem o mérito do golpe em si ou quais setores foram os responsáveis; e nem é objetivo deste texto cair no marasmo argumentativo de que todo gestor do estado burguês, é, em si, um gestor do estado burguês. Não se pretende afirmar o óbvio aqui, já que Engels e Kautsky* apontavam, no longínquo ano de 1887, a farsa, ou a alegoria do trabalhador como político e gestor sonhar realmente transformar totalmente as estruturas da sociedade capitalista de cima para baixo – ou de dentro do sistema para fora – sem que a mudança/revolução saia das bases. Não é possível simplesmente decretar, ou normatizar, transformações profundas na sociedade com base na estrutura de poder criada, justamente, para impedir tais transformações. Está claro?

Pois bem. Tendo isso em mente é preciso traçar dois caminhos práticos e metodológicos que definirão seu posicionamento ideológico: abandonar o barco institucional burguês de uma vez por todas e caminhar de mãos dadas & sorrindo rumo a revolução armada; ou apoiar reformas sociais pontuais e cíclicas como forma de suavizar ou possibilitar melhora individual da vida das pessoas em condições de exploração e opressão extremamente agudas porque é, definitivamente, o que sobra – alguns setores hão de dizer que transformações pontuais aumentam a difusão da ideologia individualista nas massas, criam conflitos internos ao movimento trabalhador, transformam a luta de classes em luta de categoria e, aparelhando os sindicatos com o corporativismo, esfacelando totalmente o poder transformador e revolucionário do proletariado*¹, o que de certa forma faz sentido. Outros setores, divergindo drasticamente, dirão que esse argumento não passa da insistência inútil de esmurrar na ponta das facas, totalmente avessa ao pragmatismo e delirante, que em nome de um potencial utópico minimiza vitórias materiais possíveis que transformam diariamente a vida das pessoas – o que também faz sentido. Um conflito, uma contradição. Essa discussão é longa e, com o perdão da palavra, sinuosa. Ambos reivindicam o materialismo à sua forma, botando Marx em maus lençóis – estes que, pelo menos, são vermelhos. Mas vamos aos fatos:

Concretizado o golpe, ambas as opções práticas e metodológicas se distanciam da realidade: primeiro que a revolução precisa de base e organização dos trabalhadores, armados e numerosos, prontos para enfrentar as forças burguesas nas tais conjunturas e vencer – o que não aparece como um cenário muito favorável.. segundo que se com um governo dito trabalhador as reformas eram mínimas e pontuais, num governo abertamente liberal-conservador, essas reformas definitivamente não vão passar. Ambas as visões precisam de reorganização, autocrítica e tempo – tempo para pensar no que fazer. Mas não podemos ficar em silêncio enquanto pensamos – e por isso falamos/brigamos demais; temos, cada um dentro dos nossos próprios vitrais ideológicos, a solução: Mas, de um modo prático, qual é a solução?

Numa pergunta um tanto quanto capciosa, durante um dos debates para prefeitura de SP, dos jornais Gazeta e Estadão, a candidata Luiza Erundina questionou o atual prefeito Haddad sobre o fato da administração de boa parte dos equipamentos públicos de saúde na cidade ser feita por OSS (Organizações Sociais de Saúde), do setor privado, tendo em vista o posicionamento – veja bem, posicionamento.. – dito anti privatização do PT, seu partido. Uma provocação. A resposta do prefeito, no entanto, tocou na base da nossa crise político ideológica e no cerne das nossas concepções metodológicas, transcrevo “Deputada, apesar de eu me posicionar no aspecto político sempre do lado de quem mais precisa, preciso entender que às vezes para atender quem mais precisa, eu preciso fazer parcerias com o poder privado”. Ora, aí eu me senti provocado: trata-se de uma frase típica de um gestor burguês e\ou liberal – ou de um sintoma da impossibilidade de qualquer outra transformação social? Os dois? Existem formas de otimizar a verba estatal e transformar o problema da saúde em solução? Por acaso pensei num sistema de saúde ‘’pós-revolução’’, ou tenho algum projeto de substituição desse aparato? Minha cabeça se encheu de dúvidas – e me vi no absurdo prático pregado pelo candidato Celso Russomano – que defendeu ‘’criatividade’’ para a utilização dos recursos públicos; ou no absurdo ideológico “gestão é a solução”, enfatizado pelo candidato ~empreendedor~ João Dória. Mas, como é de praxe, nenhuma discussão sobre bens públicos e direitos deixa de passar, necessariamente, pelo chavão do ‘’aumento de recursos’’ – lembrado, absurdamente, pelo Major Olímpio..

O candidato caricato do Solidariedade, sendo a encarnação do espírito reaça, inacreditavelmente levantou dois questionamentos: para João Dória questionou o posicionamento do PSDB articulando formas de cortar as verbas federais da educação – e depois o posicionamento ‘’criativo’’ do candidato Celso Russomano, sobre criação de políticas desportivas na cidade de São Paulo, que propõe usar a criatividade para, mesmo com a redução de verbas para a educação, utilizar os equipamentos ‘’já dispostos’’ nas escolas, como quadras e pistas de treino, para fomentar o esporte. A verdade, como apontou Haddad, e posteriormente questionou Major Olímpio, é que sem verba não se faz nada – mas tem verba?

Supondo que sim – sabendo da situação da dívida pública na casa dos 60%, e que nós a chutaríamos (de uma forma ou de outra) – e outras possibilidades que perpassam a escalada desde taxar as grandes fortunas, socializar os meios de produção, até acabar, totalmente, com a propriedade privada. Questionamos acima a possibilidade de obter tal resultado por vias institucionais ou revolucionárias – constatando o cenário nada animador. Supondo que, magicamente, consigamos obter tais avanços. Ainda assim: como seria a Educação – como instituição? Como seriam os aparelhos da saúde? Criaríamos um outro Estado, o Estado proletário? Como ficariam nossas relações internacionais se, do dia para noite, todo capital estrangeiro evaporasse ou fosse nacionalizado? O estado seria substituído – sim ou não, e como e por quê – o que nós, efetivamente, propomos para a substituição das instituições do falido sistema capitalista? Aqui posso ser romântico, idealizar as instituições soviéticas, ser anacrônico, pretender criar um projeto de socialismo nacionalista tupiniquim – que ainda não existe, como existiu/existe na Ásia – ou simplesmente dizer ‘’quando chegar lá decidimos’’.

Sem querer (ou não – vai saber), Major Olímpio e Haddad tocaram num dos pontos principais do filósofo esloveno. Não são raras as vezes que o Zizek é chamado de reacionário, quando questiona os métodos políticos desde o Movimento Ocuppy Wall Street até o Brexit, onde a principal crítica é formulada na ausência de pauta, planejamento, ou construção: a ausência de um projeto socialista, anarquista ou comunista, de fato, capaz de substituir o poder dominante. Seja por conta da falta de consenso na esquerda, seja pelo total sentimento apático, ou seja porque a vida anda meio estranha mesmo – ao contrário da direita, cujas ações normativas e projectuais são muy bien planejadas, é só olhar a sua volta. Ao fazer a crítica, a provocação reside no antepasso, no anterior, no dia-de-ontem e no pré-revolução – seja ‘pré’ o tempo que você entender, desde escala geológica até a vida de uma mosca – o momento antes do porvir, quando conhecemos, ou temos uma ideia, do que seria o tal porvir; ou ainda melhor, quando construímos o porvir. Percebi que minha dúvida mora por aí: como construiremos o nosso mundo melhor? Talvez seja hora de conciliar a ação direta com o ‘’pensar’’ – e ‘’planejar’’. É aqui que o Zizek se encontra, inclusive, com Malatesta².

Trata-se de um momento exaustivo de preparação e de cogitação. Trata-se do momento de sentar-se à mesa, de ir ao chão da fábrica, de ouvir as favelas e periferias em geral, de entender os desejos das pessoas – e de propor soluções com/para esses desejos. Procurar vários tipos de conhecimento: técnico, biológico, social.. Trazê-los ao debate, construir o inconstruível, realizar reuniões, projetar aparatos institucionais – talvez arrumar armas (?) – ressuscitar os sovietes.. seja lá qual for sua concepção. Mas para tanto é necessário tempo – e com ele a paciência. Organização também é necessária, autogestionada ou institucional – de preferência numa frente única, ou frentes amigas. Separados somos mais fracos.

Assim sendo essa a revista do Centro Acadêmico da Geografia, minha provocação final vem no maior estilo ‘’Que fazer?’’*³ do Lênin – só que ao contrário. O que nós, enquanto geógrafos, militantes, pensadores, professores, projetistas, urbanistas, geomorfólogos.. etc.. podemos fazer? Como?

NOTAS

* O SOCIALISMO JURÍDICO, Engels e Kautsky. A ironia velada no título do livro vem predizer e pré questionar os ‘’decretos’’ como ferramenta de mudança, como se a mera instituição de uma lei transformasse a realidade, invertendo o materialismo jurídico, donde a prática, o mundo material, aí sim, inspira as leis.

*¹ ANARQUISTAS NO SINDICATO, debate entre Neno Vasco e João Crispim, no ano de 1914, onde Neno Vasco sobre os sindicatos: “Mas, temendo como eu, que o espírito corporativista sobreponha a cada passo ao espírito revolucionário, que a ‘’luta de categoria’’ sufoque amiúde a ‘’luta de classes’’..”

*² A RELAÇÃO E O PAPEL DOS ANARQUISTAS COM OS MOVIMENTOS POPULARES, Errico Malatesta, compilado por Vernon Richards: “O sindicato pode surgir com um programa socialista, revolucionário ou anarquista; com programas desse tipo nascem geralmente diversas organizações operárias. Mas elas permanecem fiéis ao programa enquanto são débeis e impotentes, ou seja, enquanto constituem, mais que organismos aptos para uma ação eficaz, grupos de propaganda iniciados e animados por uns poucos homens entusiastas e já convencidos. Porém, à medida que conseguem atrair as massas para seu seio e adquirir a força para exigir e impor melhorias, o programa antigo transforma-se em uma fórmula vazia com a qual ninguém se preocupa; a tática adapta-se às necessidades contingentes e os entusiastas de primeira hora adaptam-se, eles mesmos, ou cedem seu lugar aos homens “práticos”: aqueles que se preocupam com o hoje sem pensar no amanhã.

*³ “Quê Fazer?”, Vladimir Lênin. Livro no qual o dirigente do partido bolchevique explana o conteúdo da ação política, sua organização e construção de uma organização de combate.